domingo, novembro 20, 2005

Tão diferentes, tão iguais!


Acabei de ver na SIC Notícias uma reportagem, diga-se brilhante, sobre a vida nos campos de refugiados palestinianos no Líbano. A peça presta particular atenção ao quotidiano dos palestinianos de 1ª, 2ª e 3ª geração nestes guettos que estão paredes-meias com um Líbano cosmopolita, rico, moderno.
O desemprego, o casamento como forma de abandonar o campo, a dicotomia de sentimentos entre o orgulho de serem naturais do campo face à tristeza e à miséria que lá se vive são alguns dos temas tratados.
O que mais me impressionou foram os paralelismos que podem ser feitos com a realidade da imigração europeia, tendo sempre em atenção tratarem-se de civilizações diferentes e não descurando o facto do regime libanês estar muito longe da praxis política e social europeia.
Todavia há similitudes. O Líbano tem uma política de restrição de direitos aos imigrantes que “acolhe” consistindo, por exemplo, na proibição que os imigrantes têm de exercer cerca de 30 actividades profissionais no país. Ora, não existindo essa proibição na Europa, há que assumir que um tipo de nome, um tipo de cor, um determinado local de residência podem ser impeditivos na obtenção de emprego – como se percebeu (se já não se tinha percebido!) recentemente com os tumultos nos arredores de Paris.
Em matéria de identidade nacional foi curioso ver como a 1ª geração ainda alimenta o sonho de regressar à sua terra natal, como aliás acontece na Europa, e as 2ª e 3ª geração já começam a ter problemas de identificação cultural/nacional ou procuram integrar-se em vão, mais uma vez como acontece no velho continente. Tudo isto resulta de uma guetização clara e inequívoca promovida pelos executivos libaneses. Nós optamos por uma via diferente, mas obtivemos o mesmo resultado.
Ao querermos preservar as culturas de origem dos imigrantes, em prol do multiculturalismo, criamos na Europa regimes de excepção para os que recebemos, regimes estes que fazem com que as regras dos Estados não se apliquem aos que chegam. É obvio que isto edifica guettos! Mais sério é o problema pois a imigração de que falo é de uma civilização diferente da europeia, sendo por isso maior a clivagem cultural e, consequentemente, a tenção entre locais e imigrados – situação que não se verifica entra libaneses e palestinianos.
Numa das muitas entrevistas da reportagem, um jovem palestiniano, desempregado, de 2ª geração dizia transmitir aos seus filhos os valores palestinianos pois, se não o fizesse, “digo-lhes o quê? Que são da Lua?”.
Foi isto que o Modelo Social Europeu (MSE) fez: criar 2ª e 3ª gerações da Lua, alienadas dos seus valores de origem e daqueles vigentes nos países que os acolhem.
Em teoria, o MSE é muito bonito e até humanista, mas está errado e faliu! E estamos a pagar uma factura, proveniente de culpa nossa. Está na altura de parte do espectro político europeu abrir os olhos e abandonar uma estratégia que já nasceu morta!

Sem comentários: