domingo, junho 11, 2006

PORTUGAL!


E pronto. Por alturas de mais uma competição internacional de futebol, Portugal volta a viver uma onda de patriotismo futeboleiro.
As bandeiras colocadas em janelas e marquises, crianças a gritarem o nome de jogadores como se de heróis nacionais se tratassem, futebol na capa de todo o tipo de revistas e jornais, a programação televisiva dos canais nacionais alterada de forma a actualizar os telespectadores – ansiosos por capitalizar a sua acefalia – sobre o mais ínfimo pormenor da pura, casta e honrada selecção nacional.
A histeria é colectiva. Vendem-se certas marcas de margarina (boas para o colesterol) ao abrigo do argumento que nesta época de emoções fortes é preciso salvaguardar o coração, fazem-se promoções nas operadoras de telecomunicações para se poder falar com os bravos compatriotas voluntários na frente alemã, os desodorizantes e sabonetes também têm um papel fundamental nesta época – pois na bancada e em frente à televisão também se transpira – enfim, a parvoeira generalizou-se.
Até na Assembleia da República se antecipou uma sessão do plenário, pois mais vale ter uma sessão produtiva do que cumprir o plano de actividades normal, já que este vai de encontro aos interesses nacionais (longe de nós tolerar que a sede do poder legislativo, representante de toda uma Nação, atentasse contra os interesses deste jardim à beira mar plantado!).
Ser português é ser o maior! Levar o arroz de frango para a praia. Guardar aquelas cuecas velhas para polir o carro. Criticar o governo local mas jamais se queixar oficialmente. Ladie's night à quinta. Ninguém saber nada do nosso país excepto os Brasileiros e os Espanhóis que gozam com ele. Levar a vida mais relaxada da Europa, mesmo sendo os últimos em todos os estudos. Ter sempre marisco, tremoços e álcool anualmente a preços de saldo. Receber visitas e ir logo mostrar a casa toda. Dar os máximos durante 10 km para avisar os outros condutores da polícia adiante. Ter o resto do mundo a pensar que Portugal é uma província espanhola. Exigir que lhe chamem "Doutor" mesmo sendo um Zé-ninguém. Exigir que o tratem por Sr. Engenheiro mas não tratar ninguém por outras profissões como Sr. Pintor, Sr. Economista, Sr. Contabilista, Sra. Secretária, Sr. Canalizador ou Sra. Cabeleireira. Passar o domingo no shopping. Tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro ou a tampa da esferográfica. Gastar 10 mil contos no Mercedes C220 cdi, mas não comprar o kit mãos-livres porque "é caro". No restaurante, largar o puto de 4 anos aos berros e a correr como um louco a incomodar os restantes portugas. Ter bigode. Conduzir sempre pela faixa da esquerda da auto-estrada (a da direita é para os camiões). Ter o colete reflector no banco do passageiro e pendurar o CD no retrovisor para "enganar o radar". Ter três telemóveis.
Continuamos a preferir parar um país por causa da bola, mas é um aborrecimento quando temos que trabalhar. Preferimos cantar o hino sem saber o que estamos a dizer em vez de percebermos a História do nosso país. Adoramos idolatrar uns quantos jogadores analfabetos, pois é fácil criar empatia com eles, já que também somos um povo não qualificado.
Este post não é erudito, não é sobre política, nem tão pouco se refere a uma grave crise internacional.
Não é sobre política porque até ao final do Mundial ela foi de férias (pelo menos em Portugal).
Não se refere a uma grave crive internacional já que, e se acreditarmos no lema “se não apareceu na TV é porque não aconteceu”, neste período elas também não existem.
Não tem o mínimo rasgo de erudição porque eu também já fui afectado pela praga da acefalia nacional…

4 comentários:

Rui M. F. Saraiva disse...

Olá,
Penso que os bons posts não se avaliam pelos rasgos de erudição mas pelo seu conteúdo e este é prova disso. As palavras caras, por vezes são ornamentos inúteis a serem utilizados por uma espécie de "novos-ricos das letras", que se preocupam mais com a estética literaria do texto que o conteudo do mesmo.
Ri-me imenso com a caracterização do portuga!
De facto a mediatização sensacionalista alarga-se a todas as areas. Penso que isso tb pode trazer consequências a nível político assim como "a praga da acefalia nacional" que espero se arranje a cura em breve...

van Uden disse...

Já não vinha há muito tempo ao blog, mas não podia, mesmo correndo o risco de estar muito atrasado, de comentar este post. Esta tua opinião e visão sobre Portugal não é nova para mim (e como também não é novo para ti) sabes que não gosto nem um bocadinho desta caracterização da nossa Pátria. Não a considero (como já o fiz no passado) uma falta de sentimento Nacionalista, mas ainda assim acho que não contribui em nada para o bem de Portugal. Acho que devias antes tentar aproveitar o lado bom destas nossas características em vez de apenas ver o lado menos bom do estereótipo “Tuga”.

Em jeito de despedida e brincadeira, deixa-me que te diga que já levei muitas vezes frango dentro de um pão para a praia e que os vidros do meu carro não ficaram menos limpos por ter usado umas cuecas velhas. E que Deus abençoe todos aqueles que ate hoje me fizeram sinais de luz para me avisar do radar.

D.Noivo disse...

Já cá faltava a componente beata do "Deus me abençoe"! Esqueci-me desta outra caracteristica nacional: Tudo é atribuido a uma entidade divina e nada é da nossa responsabilidade. E isto vê-se empequenos "gestos" como este. :)

Agora a sério, embora sejamos amigos, sei que me vês como um anti-cristo e como um não patriota.
Quanto á ultima matéria (pois no que é respeitante à primeira não me pronuncio), penso que temos é noções de patriotismo diferentes. Para mim, o sentimento patriota passa muito por "pôr o dedo na ferida", destacando o que está mal e o que deve ser mudado. Quero um país melhor e, como tal, julgo que só identificando os seus problemas poderei contribuir para a sua mudança. Patriotismo para mim não é adoptar uma atitude autista, dizer que está tudo bem e que somos os melhores do mundo.
Mas já tivemos esta discussão muitas vezes...

Abração companheiro!!!

D.Noivo disse...

Desculpa!!! Só agora é que vi!!! É que julguei que isto nunca seria possivel!
Não me chamaste não patriota!!
Faço a devida correcção!

Um abraço