domingo, setembro 17, 2006

11-M. A investigação

O 11- M continua a fazer parte do quotidiano espanhol.
Percebi que isto não é motivado por paixões ou por traumas, mas sim por uma necessidade de desfecho de um dia envolto em dúvidas e explicações débeis.
Nos últimos dias, os jornais espanhóis têm-se ocupado com inúmeros casos referentes à investigação dos atentados em Atocha, todos eles – se confirmados – determinantes para a compreensão dessa fatídica manhã em Madrid.
Hoje, o El Mundo tem como caixa “Díaz de Mera acusa a Rubalcaba de ocultar un informe sobre ETA y el 11-M”. O antigo Director Geral da Policia Espanhola (DGPE), Agustín Díaz de Mera, veio a público alertar para o desaparecimento de um relatório elaborado pela Unidade Central de Informação (UCI), onde são apresentadas algumas provas e muitos indícios de que a organização terrorista etarra foi parte activa no planeamento e execução dos ataques terroristas de Madrid, oficialmente atribuídos à Al-Qaeda. O Ministro do Interior (homónimo da nossa Administração Interna), Alfredo Pérez Rubalcaba, reagiu dizendo que “se a policia não o tem, se o juiz responsável pelo processo não o tem, então tal relatório não existe”. Face às declarações do Ministro, o antigo DGPE diz “claro que não existe. O tempo verbal é muito importante”, mantendo a sua versão de que tal informe existiu mas que “alguém” o fez desaparecer. Sem nunca apontar o dedo a nenhuma figura ou instituição, Díaz de Mera reitera a sua confiança na policia espanhola, salientando o “profissionalismo” e a “determinação” que a regem. Desta forma, ao dizer que a policia não é responsável pelo desaparecimento e constatando que o juiz não o tem, o relatório só pode ter desaparecido no Ministério do Interior. Este caso reveste-se de contornos ainda mais obscuros, nomeadamente com a alegada acção do Centro Nacional de Intelligencia (serviços de informações espanhóis) na manipulação do local dos atentados e com uma profanação mal autorizada do túmulo do operacional da polícia espanhola morto em Leganés, quando terroristas islâmicos se fizeram explodir num bairro periférico da capital espanhola, poucos dias depois dos atentados.
O caso que agora vos apresento é particularmente sério, na medida em que o cargo de DGPE é muito importante na estrutura de segurança espanhola e porque Díaz de Mera foi uma peça especialmente importante na investigação dos atentados.
Ontem, um antigo dirigente da ETA disse a um jornal espanhol que, nas vésperas das eleições que o PP perdeu para o PSOE, os socialistas o haviam contactado para que encetasse contactos com o grupo terrorista basco em seu nome.
Como se recordarão, a atribuição da autoria dos atentados foi crucial no desfecho do processo eleitoral ocorrido 3 dias depois, favorável ao PP (até ao momento dos atentados), mas que acabou por ser ganho pelo PSOE.
Pude ainda ler que os advogados dos homens de origem árabe, indiciados pelos atentados, vão pedir o adiamento do julgamento, em virtude de não lhes terem sido concedidas as condições mínimas para a defesa dos seus constituintes (por exemplo, a inexistência de tradutores que permitam o diálogo entre defensor e arguido).
Para quem, como eu, se interessa por assuntos relacionados com terrorismo e só agora segue, de forma diária, os desenvolvimentos desta investigação, é fácil deduzir que há pouco interesse em aprofundar o que realmente se passou no dia 11 de Março de 2004. Mas, na verdade, não passa de uma dedução…

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