quarta-feira, novembro 01, 2006

Estado da Arte.

Numa altura em que se reconhece a importância da educação e formação dos recursos humanos, e do nexo causal entre esta e o desenvolvimento das sociedades, decidi escrever sobre a percepção que tenho do efeito Bolonha no meu curso/universidade (Relações Internacionais/ Lusíada). Por isto peço desde já desculpa pelas generalizações abusivas.
No site da universidade de Oxford, li sobre a importância do diálogo e da conversação durante a vida académica do aluno universitário. O diálogo entre os alunos e entre estes e os professores, na perspectiva anglo-saxónica, é o factor essencial para a formação do aluno.
Em Portugal, antes de Bolonha, era o "ensino de sebenta" que reinava. Esse monólogo entediante, que realmente estimula no aluno uma grande capacidade de memorização, mas no meu entender, não o prepara para os desafios da sua área científica e da sua futura área profissional.
A revolução liberal aconteceu. Com Bolonha tentou-se aproximar o ensino ao estilo anglo-sáxonico. Mas destronado o "ditador", falta-nos uma sociedade cívil (professores e alunos) que saiba viver e assegurar este novo regime.
O que vejo (com a excepção de alguns casos) são professores que mantêm o ensino de sebenta, mas com a diferença de verem o seu tempo reduzido a unidades curriculares semestrais e por isso mandarem os alunos pesquisar e ler fora das aulas, por vezes sem oferecerem uma boa orientação bibliográfica.
A par disto vejo alunos que conservam os hábitos de estudo do secundário ou do "antigo regime" do ensino superior e por isso pouco interesse conservam em relação ao curso, em relação ao debate académico e científico, em relação a quererem trabalhar fora das aulas e alargar os seus conhecimentos sempre que possível. Tinha a esperança que Bolonha destruísse aquela mentalidade do: "dá cá o diploma e o resto que se lixe".
Existe ainda algo que Bolonha ofereceu aos professores e alunos: a orientação tutorial. Que é o mesmo que oferecer um ipod a um esquimó. O esquimó pode fazer com o ipod muitas coisas mas até conseguir ouvir música vai ter de compreender para que serve e como funciona.
Então o que trouxe Bolonha?
- Um novo sistema de avaliação, o que implica termos de entregar uns trabalhos de pesquisa em algumas unidades curriculares.
- Uma reestruturação dos cursos e uma maior facilidade na mobilidade dos alunos pelas universidades da União Europeia.
E pouco mais. Na verdade, mais importante que uma mudança estrutural, seria uma mudança de mentalidades.

1 comentário:

D.Noivo disse...

Percebo o teu ponto de vista e é inegável que Bolonha tem muitas virtudes. Contudo, e tendo em atenção o panorama educativo nacional, acho que é mais prejudicial do que benéfico (pelo menos agora).
No meu último ano de universidade (que saudades tenho!!!), como delegado de curso, assisti a algumas reuniões onde se explicou o funcionamento e metas do Processo de Bolonha. O “novo Regime” (como o apelidas) parte do pressuposto – e está pensado no sentido de acreditar piamente – que os alunos chegam ao ensino superior com determinado nível de cultura geral, hábitos de leitura, método de trabalho e capacidade de pesquisa. Ora, sabemos bem que isto, em Portugal, é falso.
As licenciaturas estão agora estruturadas numa lógica em que a aquisição de conhecimento seja feita em grande medida pelo aluno. Isto seria óptimo se os alunos estivessem preparados para o fazer. O grande problema não é dos professores, é do nível dos alunos.
A modernização do ensino superior em Portugal e a sua aproximação aos modelos e níveis europeus não pode ser feita nas universidades. Tem que ser feita primeiro nas escolas secundárias!
Como penso que o processo vai ser de difícil implementação, julgo que agora é que teremos a filosofia do “dá cá o diploma e o resto que se lixe".
Entendo que a universidade não deve ser uma fábrica de cursos, mas um espaço onde se aprende a pensar e trabalhar. E, como tal, entendo que o dialogo aluno-professor é fundamental para a obtenção desta meta. Todavia, em qualquer área, há que conhecer os fundamentos, a base do que se estuda e aqui é muito difícil (e indesejável) que se introduza o método da tutória, sob pena de criar facilitismos e debilidades formativas.