quarta-feira, setembro 05, 2007

Os portugueses e D. Quixote de la Mancha


O que no passado foi uma honra, hoje, é para alguns um fardo. Ser português é motivo de chalaça, de uma conotação perniciosa, de uma língua pouco falada e de um país sem projectos para o futuro. De dentro das elites portugueses fala-se bramindo ao saudosismo das glórias passadas em que Portugal tinha uma posição de relevo no mundo. Mas ainda tem!

Após a efeméride de 25 de Abril 1974 o país arruinou a sua economia no intento de procurar uma via para o caminho que conduzisse ao socialismo e findasse de uma vez o regime autoritário nacionalista conservadoro-burocratico (Estado Novo). As elites na sua maioria fugiram para o exterior procurando restabelecer-se das perdas que lhes foram infligidas. Através da democratização julgaram os portugueses ser possível romper com o passado, mas não é! Após vários cenários políticos foi em 1986 que se deu a revisão constitucional que propiciou uma constituição de cariz mais liberal, pois, só assim podia Portugal entrar no caminho comum da União Europeia (UE). Porém, hoje é necessário aos portugueses uma nova constituição, que preserve o espírito de liberdade que esta encerra mas que promova um estado liberal e com cidadãos de livre iniciativa. Sendo Portugal o único país da Europa que ainda tem um partido comunista irredutível à crença do marxismo-estalinismo, compreende-se o quão difícil é operar a mudança.

Serão os portugueses como D. Quixote que via nos moinhos seres infernais e malévolos que deviam ser combatidos ou seres errantes à frente do seu tempo que ousam dizer o que mais nenhum dos povos diz? Nem uma nem outra! A ideia de um Quinto Império, promovida pelo Estado Novo levou os portugueses a ver a classe política como messiânica impassível de errar e mesmo o devir deste povo como eleito. Há, pois, que romper com esta tradição e acabar com a crença na predestinação deste povo, mas mais importante do que isso, acabar com a comiseração que se vive em Portugal.

Só um estado liberal assente nas leis da oferta e da procura, que promova o fomento industrial interno e externo pode lograr. Só um estado que obrigue o já Henriquino ensino português a renovar-se e procurar na critica reflectida e no trabalho com mérito – pode dar à juventude vindoura o prazer de pensar e a faculdade de um raciocínio prático e lógico. Os portugueses têm de acabar com a tradição escolástica!

É de pensar que num país onde tudo se faz porque é tradição pouco ainda se pode fazer para inverter a hecatombe de nada ser feito. Mas pode, e alguns já o fazem! Há PME em Portugal de grande valor, que devem ser apoiadas pelo estado. A chave para o desenvolvimento está em fazer a ponte entre as Universidades e as empresas, para que estas possam desenvolver as suas actividades com os melhores profissionais, que nestas devem estagiar durante a sua licenciatura. Também pelo facto de o estado em Portugal ser um “monstrengo” incontornável, tornasse difícil aos cidadãos e aos empresários, em geral, viver sem a subsídio dependência. A captação de investimento interno em Portugal não é fácil devido às elevadas taxas de IVA e IRC, o que por sua vez influi nos investidores externos o receio e pragmatismo de investir neste país quando há outros com condições mais satisfatórias.

A presidência de Portugal na UE marca o ponto de viragem do que pode e deve ser o “Break even” português. Uma grande responsabilidade que faz Portugal fervilhar de actividade diplomática à qual nenhum português pode ou deve ficar impassível. É importante que os embaixadores sedeados em Portugal façam a ponte entre os seus países a nível diplomático mas não esquecendo a vertente económica.

Os profetas que vaticinam a morte do “português” para além de não perceberem nada de matemática nada compreendem de Diplomacia. Numa das fábricas do interior do Japão é estimado que 27.000 trabalhadores que compõem essas instalações são nipo-brasileiros, as próprias portas das casas de banho têm os seus dizeres em português. Cabe aos diplomatas portugueses compreender que nem só de portugueses é feito o “Mundo português”. Deve-se aproveitar os benéficos de uma língua comum, assim como, levar a aproximação aos países com emigrantes que falam a língua portuguesa. A relevância de Portugal não pode ser somente medida pela base das Lajes. No concerto das nações que respeitam o Direito Internacional, a iniciativa privada, o fomento do espírito crítico e a qualidade nos serviços através a sua privatização deve, e está, Portugal. A evolução de um estado de auto-tutela para a fiscalização periódica, em que o estado serve de emissor enquanto o receptor é sociedade civil tem de com urgência ser feito. Sob pena de que cada vez mais a não inscrição na maquina estatal leve ao seu desfuncionalismo sob a capa de liberal.
Aqui em Portugal ainda à muito por fazer, porém nenhuma destas causas é perdida ou idealista. Falta sentir-se uma vez mais o que outrora foi o orgulho de ser e falar português.
Por Duarte Serrano

4 comentários:

Joao Rafael disse...

Olá.

É só para chamar à atenção que o "problema" da mudança do país para uma política mais liberal não me parece que passe pelo PCP.
O PCP é apenas um partido que faz oposição como qualquer outro, não é estalinista porque desde o tempo de Alvaro Cunhal que o partido se orientou pela linha anti-estalinista do XX Congresso do PCUS. Se assim não fosse nem existia MRPP.
Também já não é comunista... No seu Programa Político (disponível em www.pcp.pt para quem quimer)já aceitam a propriedade privada e defendem uma economia mista.

Quanto ao problema que se põe da lusofonia, a língua portuguesa está em risco de desaparecer nos PALOP. Temos uma diplomacia priveligiada com esses países, e se não for possivel promover a língua, acho que deviamos apostar em mais cooperação económica, seria outra forma de não perder a ligação.


Cumprimentos.

Duarte Serrano disse...

Exmo. João

Antes de mais deixe-me agradecer-lhe o seu comentário. Irei ponto por ponto dizer o que penso.

1. Eu nunca disse que o futuro de Portugal passa pelo PCP, a minha intervenção somente visa uma análise, que até nem chega a essa conclusão.

2. Após a morte de Estaline o seu legado ficou comprometido devido aos horrores praticados. Era necessário limpar a imagem do Bolchevismo Internacional… Por isso Krutchev culpou Estaline de todos os males que a URSS vivia. Nas fileiras das elites comunistas aplaudiu-se, relembro que Estaline “expurgou” praticamente todos os seus camaradas. Esta instrumentalização de Estaline permitiu ao Bolchevismo “limpar a cara”.


3. O Partido Comunista Português (PCP) tem um legado Estalinista. O XX congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) que se realizou de 14 a 25 de Fevereiro de 1956 condena o culto da personalidade, promove as novas relações Leste-Ocidente e a diversidade das vias nacionais para o socialismo. Também é dissolvido o Kominform. Porém, a “Primavera de Praga” é um bom exemplo de que só em linhas gerais se operou a mudança. O facto de existir o MRPP não torna o PCP menos bolchevique. Ou torna?

4. Se ouvir a gravação que o Miguel Bleck colocou verá que o discurso de Cunhal é tendencialmente comunista, vincado pelo poder do proletariado e anti-capitalista e contra os capitalistas. Relembro que Cunhal foi um devoto comunista durante “os loucos anos do PREC” (Processo Revolucionário em Curso). Ainda se falou de Portugal vir a adoptar um modelo similar ao da Jugoslávia, o que se veio a tornar impossível. As fortes ligações de Cunhal com à URSS e nomeadamente ao Politburo são inegáveis.

Por último se o PCP aceita a propriedade privada e já não é comunista. O comunismo na sua génese também nunca existiu, ou seja, o PCP já não é tão assertivo contra o capitalismo. É sim, contra os seus efeitos promovendo greves gerais e nunca aceitando consensos a par do que se passa em outros países da Europa (Alemanha). Quanto aos estatutos, de notar que tendo Eurodeputados não podem promover um diálogo irascível do século passado e anti-liberal. Porém as suas origens são Estalinistas, devido ao seu mais carismático líder Cunhal, que foi próximo de Estaline, homem que sempre respeitou. Caro João, já por mais do que uma vez comunistas desmentiram o legado de Estaline no tocante à mortandade.


Quanto à lusofonia estamos de acordo. Ainda que o tema em que me debrucei era vincado não para a temática da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Mas para um fortalecimento da língua na sua globalidade. Dei o exemplo do Japão.

Um abraço

Rui M. F. Saraiva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui M. F. Saraiva disse...

Olá Duarte, em primeiro lugar queria congratular-te pela tua primeira "postagem" aqui no blog, e deixar claro que estamos ansiosos por um novo rasgo de criatividade académica.

É de facto necessário para Portugal, como referiste, olhar para a alternativa liberal e ousar a reformulação do ensino universitário, olhando para o exemplo dos padrões de ensino anglo-saxónicos.

Mas também acho essencial olhar para a realidade. E o que isso significa?

Significa ter uma visão adaptada ao século XXI na forma de fazer política (interna e externa) em Portugal. Isto traduz-se no descartar de uma retórica saudosista e nacionalista que ainda permanece, mesmo depois do 25 de Abril.

Ou seja:
1. Portugal é um país de dimensões pequenas com recursos escassos, comparando com as maiores potências económicas e políticas dos sistema internacional.

2. A língua e cultura portuguesa têm uma interesse internacional relevante somente no âmbito cultural. Não concebo como é possível nos tempos que correm existirem portugueses que não sabem falar inglês.

É certo que a língua portuguesa pode ser instrumentalizada pela diplomacia lusa para promover melhorer relações com os outros Estados de língua oficial portuguesa. No entanto, no meu entender isso é secundário. Portugal precisa, isso sim, de empresas fortes e competitivas no mercado internacional. E para ter um sector privado mais forte, precisa de reduzir as funções do Estado.

Para além disto, Portugal tem de ser atractivo no nível político-militar e criar uma boa imagem (mesmo que falsa...) na comunidade internacional, isto para poder exercer algum soft-power nos fóruns internacionais da diplomacia.

Conclusão em 3 pontos:
1. Menos saudosismo nacionalista e discurso pessimista.
2. Olhar para a realidade e adaptar-se ao que as circunstâncias do sistema internacional exigem para Portugal se tornar mais competitivo.
3. Reformulação das funções do Estado e do ensino universitário. O saber é também poder!