sábado, janeiro 12, 2008

Pensar Sarkozy


Desde Napoleão III que a França tem sobre si o desígnio de dominação. Começa com a revolução francesa e o seu legado de terror. Após a morte da instituição monárquica Napoleão I consegue chegar ao poder e conduzir a política externa francesa para um abismo sem fundo, a revolução suicidar-se-á a si própria. Sendo o próprio Napoleão I um legado da mesma indo esse legado até Napoleão III. A Alemanha de Otto von Bismarck humilhou a França e toda a sua cultura de glória militar. Mas a síndroma ficou, a de Austerlitz.

Esta patologia em que a França é vista como uma nação gloriosa e sem temor a qualquer Estado conduziu a um chauvinismo exacerbado. Se tentarmos encontrar um responsável estamos apenas a fazer uma caça ás bruxas, nada mais. Porém este sentimento de chauvinismo pode ter começo com o Rei Sol, Louis XIV. A centralização de poder levou a França a desdenhar algumas instituições como a SDN ou a NATO e, no seu entendimento a UE como um objecto privilegiado de política externa onde pode exercer o seu poder na Europa. Na figura de De Gaulle a França exerceu o seu papel no mundo, porém nem mesmo De Gaulle fez da França aquilo que não podia ser: uma super-potência.

Na actualidade o famoso chauvinismo francês mudou de rumo. Sarkozy favoreceu a aliança com os EUA e a cooperação para o combate ao terrorismo. Este foi um dos passos mais importantes numa reconciliação com a estrutura do Sistema Internacional. A versão de uma aproximação europeia com Sarkozy perdeu a sua vitalidade habitual. Podemos entender esta mudança como uma falta de credibilidade por parte dos franceses em relação à UE que se traduziu no referendo ao Tratado Europeu.

Na perspectiva de Sarkozy a Europa não é capaz de ter uma política externa coerente e comum. O ataque ao BCE reflecte que após décadas de uma visão una a França ora procura novos caminhos no Sistema Internacional, pois, a Europa não é capaz de os traçar.

O G8 mais cedo ou mais tarde terá de passar a G13. A China e a Índia são mercados cada vez mais flexíveis e maduros para os investidores internacionais. No caso do Brasil, México e Africa do Sul são economias que se têm tornado atractivas nomeadamente ou Brasil, ainda que na América do sul o Chile tenha um índice de desenvolvimento superior ao do México. Note-se que tanto a China ou a Índia superam a Itália em poderia económico e a Alemanha perdeu o seu lugar de maior exportador mundial para a China. A viabilidade de um G8+5 é cada vez mais uma realidade. Entende-se por isso que Sarkozy queira agregar essas cinco economias antes mesmo de estas serem agregadas, ou seja, dar o primeiro passo para a inclusão destes países.

Aqui a Grã-Bretanha está de pleno acordo com a França. A Europa hoje não discute o seu equilíbrio entre a França e Grã-Bretanha mas entre a Rússia e a Alemanha. Uma Rússia reemergente afecta a estabilidade europeia assim como o seu equilíbrio de poder. É necessário clarificar o que quer a Alemanha para o futuro e seja o que for deve constar na agenda francesa afastar a Alemanha da Rússia a todo o custo.

Por isso é tão complexo alterar o Conselho de Segurança. Ainda que Sarkozy queira alargar o número de países quem tem poder não o quer perder ou alargar. Para a França e se Sarkozy quer operar mudanças deve começar pela NATO e na pelo Conselho de Segurança. Só uma NATO fortalecida para o século XXI pode travar as pretensões da Rússia. Todavia esta onda de alargamentos não se deve estender á NATO pelo facto de a poder paralisar vindo a cair na burocratização.

Quando a querer ser a voz dos países pobres. Também a China tenda a todo o custo tomar esse lugar. Sendo para a França um antigo país colonizador tal tarefa mais complicada. Ainda que no Banco Mundial por convenção os EUA tenham mais influencia que a Europa.

Em suma é de realçar as mudanças que Sarkozy leva a cabo a nível externo. Contudo no interno não tem tido tanto sucesso. Antes de ser eleito Sarkozy disse que queria seis pontos, de assinalar: levar a França às suas obrigações internacionais, uma mudança na condução da política europeia, garantir transportes mínimos em caso de greve, dar às “grandes écoles” condições para funcionarem de forma digna, acabar com as pensões especiais e privilégios de algumas profissões. Tem feito o que garantiu fazer mas também se afastou da tradicional posição europeísta para uma posição atlanticista, o que lhe granjeou inúmeras críticas. É cedo para pensar Sarkozy mas uma coisa podemos ter presente, a de que este homem é um produto francês e mesmo sendo destemido e determinado precisara mais do que isso para uma reforma às instituições em França.

2 comentários:

Rui M. F. Saraiva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui M. F. Saraiva disse...

Olá Duarte,

Quanto a Sarkozy, queria destacar o facto de o Presidente françês ter hoje afirmado que vai assinar com os Emirados Árabes Unidos, um acordo para fins nucleares cívis, semelhante ao que já fez com a ALgeria e a Líbia. Esta política de fornecimento de tecnologia nuclear aos países árabes tem o objectivo de controlar as suas ambições nucleares e isolar o Irão.
Na mesma região, estes dias, George Bush visita o Médio Oriente, com o mesmo objectivo de isolar o Irão e promover a democracia.
Como afirmaste hoje observa-se algo raro, uma França atlanticista. Mas ao contrário, tendo em conta que temos uma Merkel atlanticista e claro um Gordon Brown atlanticista, talvez esta será a altura em que a europa possa falar a uma só voz no âmbito da política externa. Vamos esperar e ver.