sábado, junho 17, 2006

A banalização da bandeira, "nacional"?!

Como consequência das estratégias de marketing de algumas empresas nacionais e estrangeiras, ou por causa de uma euforia cíclica ligada às competições futebolisticas, penso que é redutor reduzir o conceito de nação a um universo em que a selecção portuguesa de futebol é o centro.
Não sou particularmente adepto da actual bandeira nacional, pois esteve ligada a regimes autoritários (o do Partido Republicano e o Estado Novo) durante 64 anos. Se olharmos para o verdadeiro simbolismo da bandeira, esta para além de evocar um campo ideológico de esquerda tem um cariz maçónico, sendo que a única coisa que se manteve autêntica e desprovida de um cariz revolucionário foi o Brasão Nacional.
Por fim penso que a bandeira que melhor respeitaria a história nacional seria aquela em tons de azul e branco, claro que adaptada ao regime republicano seria apenas desprovida da coroa que se encontra por cima das Armas Nacionais.

Acho interessante um artigo de António Costa Pinto sobre esta temática:


A bandeira nacional

A bandeira portuguesa está aparentemente a ser apropriada pelo desporto de massas e pelos directores de marketing da banca e dos jornais, multiplicando-se as hesitações legais e políticas sobre esta movimentação. Agora que este símbolo nacional aparece nas casas ao apelo de treinadores de futebol, com cantos de publicidade a jornais e bancos, rebelam-se alguns contra esta banalização, mas nem o problema é simples nem a solução evidente.A bandeira portuguesa é recente e a I República não teve tempo de a "nacionalizar", apesar dos milhares de mortos portugueses na Grande Guerra de 1914-18. Foi a longa duração do Estado Novo que acabou por enraizar as quinas em verde e vermelho nos rituais de Estado, com a sua presença sempre vigilante nas próprias organizações paramilitares do regime, como a Legião e a Mocidade portuguesas e sobretudo nas Forças Armadas. Apesar dos "10 de Junho" da Guerra Colonial e de algumas manifestações com bandeirinhas à espera do almirante Tomás, no entanto, raramente a bandeira se aproximou do povo. A ditadura acreditava pouco nas virtudes da apropriação popular da bandeira, cultivando a reverência e a autoridade, não fosse a oposição republicana e comunista, que também a usava, ser matraqueada na rua com ela na mão.A bandeira raramente foi tema de polarização política durante a ditadura, apesar de entre o reduzido mundo político do final dos anos 60 ter ficado célebre a propaganda (falsa) da ditadura de que Mário Soares teria lá posto o pé numa manifestação anti- -Estado Novo em Inglaterra. A seguir à queda da ditadura, mesmo com a parte vermelha a querer sobressair em 1975 e a ser dobrada nas colónias, também esta não polarizou grande coisa. O mesmo se podendo dizer da coabitação pacífica entre o vermelho e verde e o prestigiado azul da União Europeia, esta última sempre presente em cada nova estrada e centro de saúde nos anos 80.Foi preciso chegar ao futebol em acalmia democrática para que o uso da bandeira se democratizasse, adquirindo um tom festivo e pouco chauvinista. De todos os usos que dela foram feitos talvez seja este o mais benigno e, mesmo que associada à abertura de uma conta bancária, não é de crer que faça mal a alguém.
António Costa Pinto
Professor universitário
in D.N. online

3 comentários:

D.Noivo disse...

E aqui está o tal patriotismo futeboleiro sobre o qual escrevi!
Não teço comentários quanto à História da bandeira, os seus “porquês” e se deveria ser esta ou não a nossa bandeira nacional. Julgo que a problemática que se impõe é outra. No meu entender, o verdadeiro problema é a utilização da bandeira, enquanto símbolo nacional, que está em causa.
Não peço que se sinta a bandeira como resultado de determinados eventos históricos, vivendo-a de acordo com as justificações de cada elemento que ela contém. Aliás, não acho que seja essa a função das bandeiras nacionais. O que creio ser correcto é a bandeira simbolizar um povo, uma cultura e um território, fazendo com que as pessoas a sintam nestes termos e que se possam unir (e atenção que este “unir” é diferente de “mobilizar”) em torno deste símbolo.
Os recentes acontecimentos nacionais só mostram que não há um sentimento de identidade nacional. Permite-se que o símbolo nacional por excelência seja usado como outdoor publicitário, igual a tantos outros suportes usados para vender produtos. Ou seja, a nossa bandeira vale tanto como um blooper de rua ou mesmo tanto como um cartaz que se cola na parede, anunciando um concerto ou ocorrência similar.
A união em volta da bandeira nacional é artificial, na medida em que as suas cores e o seu papel não são respeitados. A bandeira é usada porque é ”a da selecção” e não porque é a portuguesa.
Falta de maturidade política? Falta de identidade nacional? Não sei, talvez. Uma coisa é certa: não se pode falar em povo português em torno de uma bandeira, pois este usa e abusa dos seus símbolos, não atendendo aos valores a eles subjacentes, vestindo-os como um qualquer adereço próprio para determinada festa. As cores nacionais só saem do baú quando há futebol.
Até o traje domingueiro que os nossos avós usavam para ir à missa era mais respeitado que a bandeira nacional!

Filipe G. Zuluaga disse...

A bandeira que o jornal Expresso ofereceu a semana passada tem num dos cantos uma publicidade de um banco, isso não é ilegal? Eu até gostei da ideia de oferecerem uma bandeira grande, que é sempre útil nas viagens internacionais para "publicitar" o país, mas com esse anúncio ridículo estragaram a ideia. Há dois anos eram os pagodes em vez dos castelos, desta vez é a publicidade num símbolo nacional. Assim é difícil promover um verdadeiro patriotismo!

Rui M. F. Saraiva disse...

Olá,
Não sei se repararam no truque do Bes para fugir a uma possível ilegalidade, é que o canto da bandeira está levantado para então aparecer o símbolo do banco.
Concordo com a noção de "patriotismo futeboleiro" apesar de este ser cíclico, é verdade tb que a problemática central é a banalização da bandeira, mas porque não aproveitar para reflectir sobre o seu significado.
Na cadeira de fundamentos das ciencias sociais tive a oportunidade de me debruçar um pouco sobre o tema do brasão nacional e as bandeiras de Portugal, o que brasão simboliza e evoca para Portugal, e para isso é necessário recorrer à história para o entender. No entanto o tema do meu trabalho final era D. Afonso Henriques como símbolo nacional. Devo dizer que fazer este trabalho e pesquisar sobre a fundação da nacionalidade, ajudou-me a orientar-me um pouco sobre o significado de ser portugês. Os trabalhos dos meus colegas, cada um com o seu tema, tb ajudaram-me imenso nessa tentativa de perceber a identidade nacional.
A própia bandeira actual para ser bem entendida poderá se recorrer ao plano circunstancial que a originou, e aí temos que estudar o porquê do Partido Republicano decidiu escolher esta bandeira e não outra.
Perante a era da globalização e integração europeia, é definitivamente importante pensar sobre o que significa ser português.